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Se só houvesse o setor privado... - 02/10/2013

O setor privado brasileiro é dinâmico o bastante para enfrentar  a competitividade internacional: adquiriu capacidade de inovar – por ver a necessidade de  investir na pesquisa e desenvolvimento – e por já ter um processo produtivo sofisticado. Por isso, situa muito bem o País entre os BRICs e mesmo entre economia mais desenvolvidas. Porém, quando seu desempenho é somado ao do setor público, a média cai. Esse último segmento, isoladamente, fica praticamente na lanterna na corrida da competitividade, puxado por fatores que contribuem para derrubar sua credibilidade no cenário externo. Mesmo assim, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,7% previsto para 2013, apesar de não ser extraordinário, não deve ser considerado "uma tragédia", já que, a despeito dos problemas, o Brasil é o país que mais cresce na América Latina desde 1950. 

Esse foi um dos principais destaques apontados pelo economista Antônio Delfim Netto na palestra "Perspectivas para a economia brasileira", que fez ontem na Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Combinando dados sobre 148 países, tirados do relatório "World Economic Forum 2013-2014",  ele mostrou que, no recorte feito  com Brasil, Rússia, Índia e China, o País fica à frente dos outros três, em 37º no ranking do setor privado de competitividade. Os pesos usados para a medição são itens como gastos de empresas com pesquisa e desenvolvimento, sofisticação da produção, capacidade de inovação, proteção do interesse de minoritários e qualidade do fornecedor local. 
 
De outro lado, no ranking de desempenho do setor público, o Brasil cai para a 134ª posição (atrás da China, Índia e Rússia, nessa ordem) em termos de carga tributária total, desperdício em gastos do governo, qualidade da infraestrutura, carga de regulação governamental e qualidade do ensino de matemática e ciências. Assim, no ranking geral, que combina as duas áreas, o País fica depois da China e à frente de Índia e Rússia.  
 
"Ataque de lucidez" Mesmo considerando que há "pessimismo exagerado" na economia, Delfim listou fatores que colaboram para diminuir a competitividade brasileira. Entre eles: financiamentos questionáveis feitos pela Caixa Econômica Federal e BNDES, a "contabilidade criativa" da área fiscal para melhorar os números das contas públicas, intervenções mal-sucedidas no setor elétrico e nos portos, desarranjos na Petrobras, expectativas de crescimento não confirmadas, projetos de infraestrutura que não deslancham – principalmente pelo atual modelo inadequado de leilões, "que o governo não entendeu ainda que não é coisa  para amadores", segundo ele – além da desconfiança mútua entre governo e setor privado.  
 
Quanto a esse último quesito, aliás, comentou que a presidente Dilma teve um "ataque de lucidez"  em Nova York (em palestra  para investidores, na semana passada), ao dizer algo como "não precisamos só do dinheiro do setor privado, mas sim porque ele é mais eficiente do que nós (setor público)". 
 
"Gosto do governo Dilma, mas acho que passou de alguns limites", disse o economista. "Apesar de mal-sucedidas, como na energia, as intervenções são bem intencionadas. Mas há ruídos internos muito profundos. Quem pensa que esse governo é socialista, está enganado: é um governo com 'senso espírita', porque falou em investimento, vem o BNDES encostar; falou em leilão, vem a Petrobras encostar. Esse governo tem 'encosto' para tudo ", brincou. Com uma tala no braço esquerdo, respondeu a pergunta do ministro da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos  – também com uma tala, só que no braço direito –, sobre a razão do imobilizador: "Acho que estou atacando muito o governo", respondeu.     
 
Ao abordar a economia brasileira, Delfim afirmou que, em termos de fundamentos básicos, e apesar do equilíbrio fiscal ainda precário e as metas de inflação "esquisitas",  continua razoável e o ritmo de atividade parece estar melhorando.  Já o câmbio flutuante convive  com a deterioração da indústria e o desempenho insatisfatório das exportações – e por sua vez, influem na competitividade internacional. Mas o "excesso de pessimismo" não corresponde às condições que o País vive. 
 
"Perder o reino"
"O crescimento do PIB em 2013 sobe lentamente, mas não há nenhuma previsão de que vá cair. Já o dispêndio de juros em relação ao PIB é maior, com déficit público na casa dos 2,5%. Isso é inconveniente, mas não é uma tragédia. O acúmulo da dívida bruta é incômodo, de quase 60% do PIB e o sétimo maior entre os emergentes. E não é algo trágico, é mais para entrar em acordo: dívida de 60%, déficit de 30%. Não é demonstração de descalabro", afirmou. 
 
Citou dados que mostram que o descompasso entre produtividade e consumo, gerada por aumento de salários no setor privado – enquanto o câmbio nominal crescia menos – foi um dos grandes erros. "Em vez de investir, consumimos. Usamos o câmbio como instrumento de controle da inflação. Em vez de cuidar do mercado externo, jogamos fora essa participação", ressaltou. 
 
Outras questões a serem vistas com cuidado, alerta o economista, são o crescimento demográfico e a  mudança da estrutura da pirâmide etária, aliadas à distribuição de renda e ao bem-estar social – quando a maior parte da pirâmide estará na faixa acima dos 50 anos (o que ocorrerá nos próximos 30 anos). "Se não consertarmos esse desarranjo fiscal de longo prazo, vamos perder nosso reino. Não tem como sustentar os futuros velhinhos sem aumentar a produtividade", afirmou.   
 
Delfim qualificou a reportagem da revista britânica The Economist ("Has Brazil blown it?", ou "O Brasil estragou tudo?") como um alerta. Segundo ele, muita gente ficou triste, mas não adianta: ninguém vive 170 anos (como a revista) inutilmente, superando dificuldades financeiras e chega até hoje, lida em 140 países.
 
"Mas errou duas vezes: uma em 2009, ao mostrar o Redentor indo para o céu como um foguete ("Brazil takes off", ou "Brasil decola"), e agora, com o Cristo voltando à terra.  É preciso entender  o humor britânico e, nesse caso, a ironia é permitida para quem tem 170 anos. Errou, exagerou... mas não inventou", destacou.


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